Somos o que somos e isso tem sentido, causa e consequência. É quando pisa na areia, vestindo um mínimo de roupa, que o brasileiro se reconhece e se sente em seu ambiente natural. Dito isso, a praia pode ser entendida como um microcosmo que mostra a sociedade brasileira em pleno funcionamento. Reproduzimos cenas que lembram aquelas que pintores como Debret e Rugendas retrataram no tempo do Império, quando escravos e trabalhadores traziam pelas ruas toda a sorte de produtos e alimentos, carregavam bugigangas e forneciam mão de obra. Alguma coisa disso permanece em nossa cultura e torna possível nossa ideia de recompensa e bem estar. Tiramos a roupa para ir à praia, mas chegando lá queremos nos enfeitar. Deixamos os restaurantes para trás, mas corremos atrás do milho cozido e do queijo na brasa. Os sorvetes nos dão descanso das crianças. O calor nos incentiva a tomar aquela cerveja gelada e há a sempre revigorante água de coco ou, se preferir, um simples refrigerante. Ao final do dia, esticamos a rede comprada poucas horas antes e nos deitamos para o merecido descanso. Se o mundo é um palco, como escreveu Shakespeare, e somos todos atores, na praia, os vendedores ambulantes talvez sejam os bobos da corte, os clowns que movimentam e divertem.
É neste cenário, em que tudo acontece debaixo de um sol escaldante, que atuam estes personagens que fazem das praias brasileiras um espetáculo à parte. E, tal como para esses ambulantes, que se aventuram pelo litoral brasileiro em busca da sobrevivência e sem garantias de sucesso, a possibilidade de expressão, para um artista, é determinante para sua existência. Nesse sentido, a obra apresentada aqui pode ser entendida como uma metáfora do fazer artístico e da força criadora. Este trabalho é um pouco isso, o reconhecimento, na figura desses vendedores, do que é para um artista, o mais fundamental: a possibilidade de sua arte existir para além de sim mesmo e no interesse espontâneo de outros. A ideia de que sua produção pode ser importante não apenas para si mesmo, mas também tem algo a dizer aos outros e significa uma reflexão coerente, uma visão capaz de resgatar o humano em nossa existência.
