Em fins de 2008, durante o Ano Novo, fui passar uns dias na Praia do Rosa, em Santa Catarina. Como não surfo, não jogo frescobol nem nada disso, não havia muito o que fazer na praia, a não ser observar a paisagem. Comecei então a notar o vai e vem dos vendedores ambulantes e a reação que sua passagem provocava nos veranistas, principalmente mulheres e crianças. Veio então o impulso de registrar, de alguma forma, esse universo que se cria na orla e existe somente lá. O primeiro gesto, naturalmente, foi o da fotografia. Mas eram imagens banais o que pude produzir. Meros instantâneos lembrando, na melhor das hipóteses, a secura do registro jornalístico. E não era isso o que eu buscava. A ideia era captar algo mais transcendente, que se criava naquele microcosmo composto de muitas linguas, procedências e sotaques. Além disso, fotografar pessoas sem seu conhecimento ou autorização é algo indiscreto e invasivo. Em paralelo, já vinha alimentando uma retomada do desenho, prática que computador e anos de trabalho publicitário haviam relegado. Por que não transformar o tema em arte? Os elementos que tradicionalmente servem ao desenho e à pintura estavam todos ali: o corpo humano, a paisagem e, principalmente, a cor.

O que faltava eram materiais adequados e os primeiros apontamentos foram feitos com o que estava à mão: lápis velhos, canetas esferográficas e papel chamex comprados no supermercado etc. Os desenhos toscos e desajeitados, faltava ainda adestrar a mão. E o olho. Mas foi o suficiente para a ideia ganhar vida e se confirmar como tema de investigação.

Numa segunda vinda ao Rosa, poucas semanas depois, já fui preparado. Croquis agora eram feitos em pequenos blocos de papel diretamente na praia e  mais tarde revisados na casa alugada. De volta a Curitiba, o material era selecionado e redesenhado no conforto do estúdio. Ao todo, foram 3 verões de envolvimento com o tema. Além do Rosa, principal palco de observação, foram percorridas também a Guarda do Embaú, algumas praias de Florianópolis, do Rio Grande do sul e do litoral do Paraná, incluindo a Ilha do Mel. O foco, porém, foi sempre o mesmo: a presença humana. E, particularmente, a figura do vendedor ambulante se destacando por suas atitudes carismáticas e parafernália característica.

A presença deles na praia, convidando ao consumo, nos fazendo gastar pequenas quantias, funciona também como uma prestação de serviços. Não é o cliente que vai até a loja. É a loja que vai até o cliente.

Para obter maior eficiência nas vendas, os ambulantes não medem esforços e tratam de se destacar em meio à concorrência. Discurso afiado, sempre atentos ao primeiro olhar ou sinal de interesse.  Sorveteiro nem precisa se esforçar muito, a garotada já sai correndo. E a jovem mãe, que quer bater papo com as amigas, chama o moço do picolé e assim distrai a filha pequena. Quando passa o homem-arara, aquele que carrega sobre os ombros uma armação de madeira com dois cavaletes nas extremidades, as mulheres não deixam de dar uma conferida de nos vestidos, saídas de praia, lenços, batas e túnicas. O vendedor de queijo, assado na brasa ali na hora mesmo, e são muitos deles, precisa também se diferenciar e, tal como um sacristão,  transfomra a preparação  do alimento num ritual. A moça dos vestidos chega de braços abertos, como uma Nossa Senhora que acaba de descer do altar e se prepara para se transformar em Iemanjá.Vem carregada de tentações e apresenta cada uma delas, fazendo do próprio corpo o manequim. A conversa surge naturalmente e, por alguns minutos, vendedora e cliente são velhas amigas falando sobre moda e o que vestir nesse verão.

Não muito depois, passa a moça das bijoux: pouca prata, muito epóxi. É bonita e jovem, os trajes quase farrapos, estética hippie rastafári. Os vendedores de redes e mantas são sempre nordestinos. Dão preferência aos veranistas de pele clara ou cabelo louro, diferente do que estão acostumados em sua terra. Pensam que se trata de estrangeiros e se aproximam na esperança de boa venda. Quando descobrem que seu alvo não são gringos, mas brasileiros do Sul, assumem logo que pelo mesmo motivo, a pele clara e o aspecto europeu, são dignos de atenção especial. Percorrem vários quilômetros por dia, subindo e descendo a praia várias vezes suportando o sol forte. Talvez estejam já acostumados com isso em sua terra. Ou talvez seja apenas a necessidade da sobrevivência. Nesse sentido, agem como um artista que produz coisas belas e precisa de um público que as aprecie. Sem isso, não sobrevive existencialmente.

Este trabalho é um pouco isso, o reconhecimento, na figura desses ambulantes, do que é, para um artista, o mais fundamental: a possibilidade de sua arte existir para além de sim mesmo e no interesse espontâneo de outros. A ideia de que sua produção pode ser importante não apenas para si mesmo, mas também tem algo a dizer ao público e significa uma reflexão coerente, uma visão capaz de resgatar o belo em nossa existência.