Situada na fronteira entre o desenho e a pintura, a aquarela teve seu momento de maior prestígio na primeira metade do século XIX. Com seus parcos recursos necessários ao uso, a velocidade de execução e a rapidez da secagem, era meio ideal para o registro imediato e instantâneo até a chegada da fotografia. Não por acaso, os primeiros fotógrafos eram exímios aquarelistas.
A translucidez da aquarela é inigualável por qualquer outro tipo de pintura. Através das pinceladas, o branco do papel é revelado fazendo a pintura brilhar por dentro. É esta luminosidade que permite ao aquarelista representar a luz de forma única: dar um sopro de vida aos retratos com tons de pele brilhantes e captar os efeitos da chuva ou do sol na paisagem.
É uma técnica que exige uma tomada rápida de decisão e, feita a mancha, não admite retoques. Apesar de ser possível planejar muitos efeitos, por vezes a aquarela reage de forma imprevisível. Esta espontaneidade pode ser intimidadora, mas pode-se usá-la a favor. Longe de ser um limitação, é essa característica que torna a técnica tão fascinante. E foi, justamente, essa sinceridade desenvolta das pinceladas que permite a aquarela, o motivo da escolha da técnica para este registro.
A maioria dos trabalhos apresentados aqui foi precedida de croquis executados em lápis preto e rápidas aguadas adquirindo depois, em estúdio, sustância com a transparência da aquarela.
São imagens que retratam um cotidiano de verão tipicamente brasileiro, quando nos deslocamos para o litoral carregados de expectativas, um certo desejo de aventuras e muita bagagem. Lá, nos deparamos com todos aqueles vendedores ambulantes de aspecto exótico a se comportar como nativos de um suposto paraíso tropical, nos oferecendo dádivas (na forma de bebidas, alimentos, roupas e acessórios como cangas, mantas e redes de deitar, biquínis, colares, brincos e toda uma sorte de bugigangas) à já sobrecarregados visitantes vindos de uma distante civilização com seus imprescindíveis artefatos de viagem: toalhas, bolsas, mochilas, sacolas, geladeiras de isopor, cadeiras desmontáveis, guarda-sóis etc.
Nesse cenário, nessa diversidade de etnias e ocupações, em que a luz bruta é um elemento desagregador sob o sol escaldante dos trópicos, e cria, como disse Delacroix: “ uma massa colorida para cada objeto, refletido diferentemente de todos os lados “ surge a possibilidade de uma iconografia de tipos e costumes brasileiros no verão que remete ao Brasil Colonial de Jean Baptiste Debret, Rugendas e outros artistas viajantes do período.

